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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Principal causa de poluição da água, falta de coleta de esgoto atinge 83% dos alagoanos e ameaça saúde e turismo

No Brasil, são quase 100 milhões de pessoas sem coleta e tratamento de esgoto, que compromete saúde da população e, no caso de Alagoas, é ameaça também ao turismo, segunda atividade econômica mais importante do estado. Companhia de saneamento diz que vai dobrar cobertura em dois anos.

O Brasil lançou diariamente no solo, córregos, rios e mar 5.622 piscinas olímpicas de esgoto não tratado, segundo dados referentes a 2017 e divulgados nesta terça-feira (23) pelo Instituto Trata Brasil. O lançamento de esgoto sem tratamento é apontado pela Agência Nacional de Águas (ANA) como a principal forma de poluição de água no país.
É por isso que a situação em Alagoas é tão grave: 83,1% da população do estado não tem coleta de esgoto e só 20% do que é coletado é tratado, de acordo com o relatório de 2019 do Sistema Nacional de Informação Sanitária (SNIS).
Na capital Maceió, a poluição é um problema antigo do Riacho Salgadinho (assista no vídeo acima). O rio percorre a cidade de norte a sul recebendo esgoto e lixo das populações ribeirinhas e, quando chega à Praia da Avenida, na região Centro-Sul, seu nível de coliformes fecais está milhões de vezes acima do adequado.
Isso acontece com outros rios na cidade, como o Riacho Doce, na Zona Norte. Ele percorre o bairro recebendo esgoto e deságua no mar, na praia de Riacho Doce. Somada ao plástico e à sujeira deixados pelos banhistas nas praias, essa contaminação compromete também a biodiversidade marinha.
Local onde Riacho Salgadinho deságua no mar, na Praia da Avenida — Foto: Marcelo Brandt/G1
Desafio Natureza do G1 esteve em Alagoas para verificar o impacto da poluição da água. Em um estado conhecido como o "Caribe brasileiro" por causa de águas transparentes, recifes de corais e piscinas naturais, a contaminação das praias é uma ameaça ao turismo, segunda atividade econômica mais importante do estado, atrás apenas da sucroalcooleira, de acordo com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Alagoas (Sedetur).
O estudo Observando os Rios (2019) da SOS Mata Atlântica apontou a piora no índice de Qualidade da Água (IQA) em Alagoas: 14,3% está com qualidade ruim. Não há nenhum corpo d'água considerado bom no estado. Todos os demais foram considerados com qualidade regular.
O estudo Observando os Rios (2019) da SOS Mata Atlântica — Foto: Rodrigo Cunha/G1
E não é somente o turismo e a economia que ficam ameaçados com as águas poluídas de Alagoas, mas também a saúde da população local. No estado, a esquistossomose é uma doença endêmica, ou seja, ocorre habitualmente e com incidência significativa na população da região. Em 2018 foram 5.971 casos em Alagoas, de acordo com o Ministério da Saúde.
Trata-se de uma verminose transmitida pela liberação de ovos do parasita através de fezes do homem infectado. É uma das Doenças Relacionadas ao Saneamento Inadequado (DRSAI), ao lado de cólera, amebíase, diarreia e gastroenterite, entre outras, de acordo com a Funasa (Fundação Nacional de Saúde).
Segundo a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), quanto maior o acesso ao saneamento, menor a incidência de internações por DRSAI.
Nas cidades de pequeno e médio porte que ainda estão dando os primeiros passos para a universalização do saneamento, a taxa média de internações por essas doenças é três vezes maior do que nas cidades que já estão rumo à universalização.
Média de internações por Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DSRAI) — Foto: Rodrigo Sanches/G1

Quase metade dos brasileiros sem coleta de esgoto

A falta de saneamento básico é um problema em todo o Brasil. São quase 99.710.520 brasileiros sem acesso à coleta de esgoto, o que representa 47,6% da população, de acordo com uma pesquisa da Confederação Nacional da indústria (CNI), com dados do SNIS 2019.
A Abes publicou um ranking da situação das capitais brasileiras em relação ao saneamento básico:
Desempenho das capitais brasileiras em saneamento básico — Foto: Rodrigo Cunha/G1
Maceió é a décima oitava capital no ranking nacional. Curitiba está em primeiro lugar e é a única capital em todo o país que está rumo à universalização, faltando apenas 0,01% de coleta de esgoto para o atendimento total da população.
A pior capital é Porto Velho, onde só 4,58% da população tem coleta de esgoto. São Paulo ocupa o quarto lugar do ranking, atrás de Curitiba, Belo Horizonte e Goiânia.
Os números apontam para a falta de investimento no setor. No caso de Alagoas, o investimento em saneamento básico foi de apenas 1/4 da média do Brasil em 2017, de acordo com a CNI. O investimento por habitante em 2017 foi de R$ 12,70. A média nacional é de R$ 52,53.
De acordo com Clécio Falcão, presidente da Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal), o déficit do estado é de “uma defasagem muito grande, como todo mundo sabe”, mas é fruto de falta de investimento por parte do governo do estado em um período em que as companhias estavam sucateadas.
"Saneamento não foi prioridade no Brasil nos últimos quarenta anos. As companhias estaduais foram sucateadas porque muitos governos estaduais não autorizavam os aumentos tarifários necessários para agradar a população de forma demagógica. Ficamos com uma tarifa que não permitia nem fazer manutenção com qualidade", diz Clécio.
Dados mais recentes do SNIS 2019 apontam que atualmente apenas 28,4% da população de Maceió e sua região metropolitana tem coleta e tratamento de esgoto. A Casal diz que aumentou essa cobertura para 35,4%, com a inauguração, em junho, de uma obra que atende bairros da Zona Norte.
Mas os dois terços da população restante correspondem a 824.243 mil pessoas.
Clécio Falcão, presidente da Companhia de Saneamento Básico de Alagoas (Casal) — Foto: Marcelo Brandt/G1
Clécio Falcão, presidente da Companhia de Saneamento Básico de Alagoas (Casal) — Foto: Marcelo Brandt/G1
De acordo com o presidente da companhia, a cobertura de coleta e tratamento de esgoto de Maceió deve dobrar em dois anos devido a obras em andamento feitas com Parcerias Público-Privadas (PPP).
“Até o final de 2020 estaremos dobrando o atendimento à população de Maceió em toda a parte médio-alta e a parte alta da cidade que hoje não tem esgotamento e estarão sendo contempladas. Aí a cobertura estará passando para 70%”, declarou Falcão.
Esses números consideram a coleta de esgoto feita por órgãos públicos. Não estão inclusas aí soluções individuais para o esgotamento sanitário, como, por exemplo, o uso de fossas sépticas, que não são a solução ideal para áreas urbanas, segundo especialistas. Elas podem contaminar lençóis freáticos ou ainda chegar de formas clandestinas a canais pluviais, formando um ciclo de contaminação dos rios e do mar (entenda abaixo).
O ciclo da contaminação de rios e mar pelo esgoto — Foto: Wagner Magalhães/G1

Fossa séptica também pode contaminar

E quem usa fossa séptica e destina o esgoto para as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) também pode estar ajudando a contaminar a água sem se dar conta. De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente de Maceió (Sedet), das 118 ETEs da cidade, apenas 20 atendem os parâmetros ambientais desejados.
Já o esgoto coletado pela Casal em Maceió recebe um tratamento primário em uma ETE e é lançado ao oceano através de um emissário submarino. Trata-se de um tubo de 3 mil metros submerso no mar, que libera o dejeto tratado e diluído através de difusores instalados a partir dos 400 metros finais da sua extensão, ou seja, a 2,6 km da costa.
As correntes marítimas nos locais onde acontece o lançamento desses efluentes são paralelas e por isso não convergem para a costa, perto da praia, mas se espalham na direção do oceano. De acordo com o Instituto do Meio Ambiente (IMA), um monitoramento feito a 200 metros dos locais de depósito de dejetos mostram que o índice de contaminação bacteriológica desaparece. Os microrganismos não suportam a salinidade do mar e morrem.
“É um tipo de tratamento que é aceitável e, pelo acompanhamento que temos feito, não tem afetado nem a biodiversidade marinha e nem as nossas praias”, diz Ricardo Oliveira, coordenador do Programa Estadual de Gerenciamento Costeiro (Gerco) do IMA.
Riacho Salgadinho na altura do bairro do Poço, região central de Maceió — Foto: Marcelo Brandt/G1
Riacho Salgadinho na altura do bairro do Poço, região central de Maceió — Foto: Marcelo Brandt/G1

O Riacho Salgadinho

Na capital alagoana, o famoso Riacho Salgadinho é alvo de campanhas de despoluição há pelo menos 30 anos. Em 2000, a então prefeita Kátia Born (PSB) mergulhou na Praia da Avenida, que já era fechada para banho havia 30 anos, depois de obras de despoluição – que não duraram muito.
Em março deste ano, no Dia Mundial da Água, uma escultura provocava os transeuntes ao questionar em uma placa quem teria coragem de mergulhar ali.
O nível de coliformes fecais onde o Riacho Salgadinho deságua no mar, na Praia da Avenida, chega a milhões por 100 ml de água. Para se ter uma ideia, a quantidade aceitável de coliformes fecais para essa quantidade de água é de até mil. Ali onde o rio deságua não é feita mais a pesquisa de balneabilidade de praia porque era um “desperdício de pessoal e de recursos”, de acordo com Ricardo Oliveira, do IMA.
A situação piora quando chove, e o esgoto ganha "força" para chegar às praias.
Jair Alves, de 38 anos, vende garrafas d'água às margens do Riacho Salgadinho na altura do bairro do Poço, região central de Maceió. "Entra ano, sai ano, esse Riacho Salgadinho, um dos mais lindos que já existiram no passado, infelizmente continua dessa maneira. Maceió tem muitas praias bonitas, mas ainda continua em uma decadência dessas", diz ele sobre a poluição.
O vendedor ambulante Jair Alves vende água às margens do Riacho Salgadinho, em Maceió — Foto: Marcelo Brandt/G1
O vendedor ambulante Jair Alves vende água às margens do Riacho Salgadinho, em Maceió — Foto: Marcelo Brandt/G1
Uma força-tarefa criada pelo Ministério Público Estadual pretende revitalizar o Riacho Salgadinho, retirando a população que mora em seu entorno e impedindo a ocupação por novos moradores ao não fazer ligações de energia elétrica.
De acordo com Leonardo Vieira, assessor executivo de gestão interna do IMA, as águas nas praias sofrem com a sujeira dos turistas, mas o maior problema é o esgoto.
"A principal forma de contaminação das águas no estado é lançamento de esgoto sem tratamento nos corpos hídricos. Poluição deixada nas praias pelos banhistas é um problema menor, mas tem de ser combatido, claro", diz o ambientalista.
Leonardo Vieira, assessor executivo de gestão interna do Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Alagoas — Foto: Marcelo Brandt/G1
Leonardo Vieira, assessor executivo de gestão interna do Instituto do Meio Ambiente (IMA) de Alagoas — Foto: Marcelo Brandt/G1
Sem praias balneáveis (próprias para banho), não há turistas. Para Rafael Brito, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Alagoas (Sedetur), o principal desafio para o crescimento econômico do estado é justamente a falta de saneamento básico.
“O turismo tem que ser a nossa vocação de geração de emprego e desenvolvimento, e sem dúvida a falta de saneamento básico ainda é um dos grandes problemas", afirma.

 População do bairro Riacho Doce, na Zona Norte de Maceió: ninguém tem coleta de esgoto no bairro — Foto: Marcelo Brandt/G1
População do bairro Riacho Doce, na Zona Norte de Maceió: ninguém tem coleta de esgoto no bairro — Foto: Marcelo Brandt/G1
Riacho Doce, que dá nome ao bairro em Maceió: qualidade de água regular em medição de estudo da SOS Mata Atlântica — Foto: Marcelo Brandt/G1
Riacho Doce, que dá nome ao bairro em Maceió: qualidade de água regular em medição de estudo da SOS Mata Atlântica — Foto: Marcelo Brandt/G1
Fonte: G1

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